quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Amanhã é muito longe
Amanhã é muito longe. Prefiro o entardecer e a noite de hoje, a madrugada bela e vazia. Mas amanha? Amanhã é muito tarde.
Hoje eu ainda acredito um bocado, amanhã talvez não, porque dormir me faz sonhar e cada sonho rouba um pedaço de esperança ou de crença que vira pesadelo, vai embora com o abrir dos olhos.
Hoje, por favor, hoje. Amanhã não.
Quem é que gosta do amanhã? De esperar por um dia que nunca chega e acontecimentos que podem existir dentro de 24 horas e teimam em ser depois disso?
Quero os olhos arregalados hoje, quero teu corpo embriagado e tua constante morte em vida. Amanhã sou eu quem pode estar morto.
Tenho tanta coisa pra te entregar, tudo o que eu guardei sem ter porque, não é amor de novela nem canção em inglês. É um porto, uma vontade emperrada no centro da minha vida, é a montanha que meus cabelos sonham. Hoje, por favor.
O amanhã traz pavor, traz aflição total e embarca as emoções num navio que não vai pra lugar nenhum. Eu gosto da liberdade absoluta, mas dentro dela, cabe o pertencer.
Pertencer. Hoje, amanhã pode ser talvez.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Beijo imenso
Me deram um beijo.
Na ponta do ego, na beira do abismo. Onde as flores nascem e florescem como guias e anjos da guarda.
Afinal, pra que servem os anjos?
Me deram um beijo no céu da boca.
Onde nada toca além de notas musicais, onde nada importa além de sons de corais.
Eu tenho medo do escuro. Tenho medo de ficar sozinha, e tenho medo de ficar sozinha no escuro.
Você não percebeu. Quem te ama do fundo do porão sou eu.
Gente assim não deveria sobreviver ao caos, não deveria sobreviver a descargas elétricas. Eu rezo pra que gente assim, que beija o nosso ego, sofra de amores até o fim.
Meu desejo não tem limite.
A minha voz não existe e a cachoeira do meu quarto insiste só pra ficar te escutando até sentir sono. Você não faz idéia do que eu sonhei ontem.
A única coisa que seguro com força é meu medo. Me segura bem forte pela mão de outono. Diz que ainda não vai me soltar?
Me beijaram profundamente, bem no canto dos olhares profundos, atearam fogo em meu coração e feito brasa amei bem mais que a mim.
Foi um beijo grande, um beijo imenso.
Mas eu não desejo isso a ninguém.
Dedico à Tali
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Quase Nada

"Sempre tentando segurar alguma coisa por vaidade. Quando vira amor ou necessidade, pareço um cata-vento, buscando seu perfume, que vem com o tempo"
Estou perdendo as contas, dos sapos engolidos, das veias explodindo.
Sinto a necessidade de ser tão exata nas minhas escolhas que a falta de certeza me faz não ir pra lugar nenhum, eu tenho medo do escuro, do escuro outra vez.
Um dia cheguei a pensar que a falta de ‘certas coisas’ não me faria diferente, do nada comecei a sentir a ausência absurda como se o céu não se exibisse sobre minha cabeça, como se existisse uma lua pra todo ser humano menos pra mim, eu amo aquilo que me falta.
Eu nunca sei onde estou indo, e muito menos me explicar. Estas são umas das coisas que mais incomodam as pessoas, por que quando estou em silêncio eu consigo dizer muito além do que quando tento me explicar. As coisas não tem sido tão justas, e é culpa minha, eu sei.
Existe um abismo imenso separando aquilo que sou, do que me tornei.
Não tem nenhuma razão, nenhum porque exato pra definir este sentimento imbecil depois que tudo acontece. Sempre deixei alguém pra traz e quando comecei a ficar pra traz é que meu mundo tumultuou, cobrindo minhas ruas de tanta coisa suja e do desespero infantil de não ter com quem brincar.
Ultimamente eu não tenho brincado de nada a não ser esconde-esconde.
Estou procurando a saída, e por mais que mil pessoas me apontem meu coração ingrato não percebe, fica sapateando ao redor do buraco e não faz nada, não muda, não encara. Fiquei pra trás de novo.
Como um vício eu escolhi partir e depois fiquei doente, porque só depois que o sol se pôs é que eu senti tudo aquilo que deveria ter dito com certeza antes, e ficou tarde e eu tive tanta coragem de repente sem ter sorte.
Quando estas coisas acontecem, eu viro um relógio, de ponto em ponto, de segundo em segundo, tentando sufocar os desejos e as palavras até que elas acabem. Demora um tempo razoável. Tempo suficiente pra me fazer arrepender dias a fio. Mas passa.
Não me incomodo de olhar uma hora pra trás sabendo que eu tive toda a exatidão que precisava e decidi escondê-la. Porque sempre que eu descubro o exato, não é mais o certo pra todo mundo. As cadeiras não estão mais no lugar, nem as flores, nem os cantos.
Então eu fico nesta mesmice, esperando que alguém me jogue fora direito. Ou que me faça acreditar em alguma coisa.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Encontro
Quero que a paz me ache. Que venha correndo ao meu encontro e me abrace. Que me pegue no colo e aperte meu corpo, beije meus lábios firmemente.
Quero que a paz me ame, como o rio que ama o peixe, como o vento que ama os cabelos, como os olhos que ama o céu nublado.
Que a paz me encontre, habite meu infinito e venha morar comigo.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Ainda mais
Um dia eu disse ‘fechei os olhos e sonhei tão lindo’. Hoje eu fechei os olhos e a mão, como tenho feito quase todos os dias. E toda vez que eu os fecho, as unhas machucam a mão se formando na vontade de esmurrar qualquer coisa.
Não sei se tenho raiva de mim toda hora, às vezes é do tempo, do pensamento, do amor exigente e egoísta que eu carrego igual uma mochila nas costas todo santo dia.
Eu merecia um soco bem na boca do estômago. Pra faltar o ar por alguns instantes e eu sentir que vou morrer, só pra ver se me arrependo e aumento meu amor próprio e fico invencível.
Eu queria poder pegar com as mãos essa sensação de estar sempre sobrevivendo de esmolas e mentiras dos outros. Tento aprender todos os dias ser diferente.
Acredito que jurei aos meus 14 anos tão profundamente não mudar, não me corromper que acabei ficando estúpida e idiota.
Mas não quero te dizer da minha vulnerabilidade. Quero falar do soco.
Porque as mãos pedem pra arrebentar as paredes do meu corpo e desistir das minhas exigências, e alguma coisa imbecil dentro de mim fica nesta guerra insana jurando por tudo quanto é santo que amanhã vai ser melhor.
Amanhã... É sempre nele que eu espero, como se amanhã um trovão fosse me acertar a cabeça e arrancar o coração igual um palito de dente espetando uma azeitona levando até a boca de Deus.
Ainda mais agora. Que me sinto uma estação esquecida, onde o relógio mudou, e tudo ao redor, e eu fui a única que não percebeu. Fiquei esperando alguma coisa, olhando o horizonte como se uma aurora boreal fosse me buscar pra ir além.
Ainda mais hoje. Que eu tenho compromissos que não tem nada a ver comigo, e eu queria que alguém estivesse disposto a me acompanhar nessa cidade de merda onde nada acontece.
Eu sempre espero que as pessoas, mesmo que exaustas, queiram me acompanhar. Nem deve ser culpa dos compromissos chatos, deve ser a minha chatice, a minha companhia de merda nessa cidade.
Tenho seguido aqueles conselhos idiotas que nos damos em momentos de renascimento. Eu ignoro as pessoas e as faço sentir que estou ausente, pra descontar a minha frustração quando me sinto berrando o tempo todo sem ninguém prestar atenção.
Na verdade, eu continuo escutando cada sussurrar das pessoas que eu amo, o bater das asas invisíveis, o toque dos lábios quando falam, os cílios abrindo, e continuo acompanhando cada uma delas em tantos dias chatos, só pra demonstrar meu afeto, verdadeiro e imbecil.
Mas eu mereço mesmo é o soco na boca do estômago, ainda mais hoje, que não comi nada.


