quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Ainda mais


"É só pra chamar sua atenção..."


Um dia eu disse ‘fechei os olhos e sonhei tão lindo’. Hoje eu fechei os olhos e a mão, como tenho feito quase todos os dias. E toda vez que eu os fecho, as unhas machucam a mão se formando na vontade de esmurrar qualquer coisa.
Não sei se tenho raiva de mim toda hora, às vezes é do tempo, do pensamento, do amor exigente e egoísta que eu carrego igual uma mochila nas costas todo santo dia.
Eu merecia um soco bem na boca do estômago. Pra faltar o ar por alguns instantes e eu sentir que vou morrer, só pra ver se me arrependo e aumento meu amor próprio e fico invencível.
Eu queria poder pegar com as mãos essa sensação de estar sempre sobrevivendo de esmolas e mentiras dos outros. Tento aprender todos os dias ser diferente.
Acredito que jurei aos meus 14 anos tão profundamente não mudar, não me corromper que acabei ficando estúpida e idiota.
Mas não quero te dizer da minha vulnerabilidade. Quero falar do soco.
Porque as mãos pedem pra arrebentar as paredes do meu corpo e desistir das minhas exigências, e alguma coisa imbecil dentro de mim fica nesta guerra insana jurando por tudo quanto é santo que amanhã vai ser melhor.
Amanhã... É sempre nele que eu espero, como se amanhã um trovão fosse me acertar a cabeça e arrancar o coração igual um palito de dente espetando uma azeitona levando até a boca de Deus.
Ainda mais agora. Que me sinto uma estação esquecida, onde o relógio mudou, e tudo ao redor, e eu fui a única que não percebeu. Fiquei esperando alguma coisa, olhando o horizonte como se uma aurora boreal fosse me buscar pra ir além.
Ainda mais hoje. Que eu tenho compromissos que não tem nada a ver comigo, e eu queria que alguém estivesse disposto a me acompanhar nessa cidade de merda onde nada acontece.
Eu sempre espero que as pessoas, mesmo que exaustas, queiram me acompanhar. Nem deve ser culpa dos compromissos chatos, deve ser a minha chatice, a minha companhia de merda nessa cidade.
Tenho seguido aqueles conselhos idiotas que nos damos em momentos de renascimento. Eu ignoro as pessoas e as faço sentir que estou ausente, pra descontar a minha frustração quando me sinto berrando o tempo todo sem ninguém prestar atenção.
Na verdade, eu continuo escutando cada sussurrar das pessoas que eu amo, o bater das asas invisíveis, o toque dos lábios quando falam, os cílios abrindo, e continuo acompanhando cada uma delas em tantos dias chatos, só pra demonstrar meu afeto, verdadeiro e imbecil.
Mas eu mereço mesmo é o soco na boca do estômago, ainda mais hoje, que não comi nada.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

No tempo do tempo


"Há um tempo estabelecido para cada coisa. Tudo deve nascer crescer e morrer para renascer em seguida. Ninguém nunca conseguirá mudar essa lei"


Parar de pensar, parar de chorar, parar de brigar.
Parar de torcer, parar de correr, parar de cair.
Parar de sonhar, de iludir, parar de frustrar.
Parar de deixar, não mais permitir, parar para sorrir.
Parar de voltar, de acreditar, parar de fugir.
Parar pra entender, pra recomeçar, parar pra cantar.
Parar de imaginar, parar de mentir, parar de escutar.
Parar pra respirar, pra colorir, parar pra deitar e dormir.

Parar é necessário, não é obrigatório, somente necessário.
Corro tanto por aí, querendo engolir todas as coisas numa só garfada, fazer todas as coisas numa só rodada, percebo que mais tumultuo do que realizo.
Realização existe quando não se corre.
Parar é admitir-se no fracasso de tantas coisas que se tornaram frações de desespero. Tudo passou, mas nada ficou.
Parar é colocar-se por completo sobre o chão, sem cerimônias, sem anseios, sem frustrações. É recomeçar deixando pra trás tudo o que não acompanhou você por inteiro, ou por vontade própria. As coisas e as pessoas são livres como pássaros, os sentimentos também devem ser. Tudo isso, as vezes para no caminho antes de nós, e caminhamos arrastando acreditando que aquilo caminha por vontade.
Parar é olhar para dentro.



Um bom recomeço, pra quem também acabou de parar!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Desapego

"Fica nos dedos, fica a memória, eu nem me lembro mais..."


Chances nós não damos para as outras pessoas, damos a nós mesmos.
Quando você sabe que o sentimento é bem maior que o erro, do que a mancada, daí você dá uma nova largada. Você é quem precisa daquilo ou daquela pessoa de novo, não está dando uma chance por ela, mas por você mesmo.
Acho que não consegui dar a décima chance, pois não havia sentimento, e sobreviver descobrindo que era tão artificial até quando sentava na sua calçada não me incomodou, surpreendeu, mas sem doer desta vez.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Eu vou gostar de você


"Toda vez que eu olho, toda vez que eu penso em lhe dar o meu amor, meu coração pensa que não vai ser possível..."

Eu vou gostar de você. E você pode espernear quando eu quiser apertá-lo em meus braços e me odiar, ainda assim eu vou gostar de você. Pode soltar em mim seus espinhos e fazer cara de menino mal, eu vou gostar de você.
Eu gosto dos seus olhos tristes e do seu riso pequeno, que levanta o canto dos olhos num olhar fraterno.
Eu vou gostar de você ainda que você me assuste, ainda que recuse o pouco carinho que é meu muito, e pra mim é inteiro, eu vou te gostar mesmo que sua roupa for estranhamente brega e me faça rir.
Vou querer tua palavra mesmo quando sei que você é rude, vou me esconder em baixo da cama e passar a noite chorando de decepção, mas, ainda assim, eu sei que vou gostar de você.
Porque eu não posso escolher o que sentir, ninguém escolhe, vem com o vento, o pensamento, pressentimento. Coisa assim, feito chocolate derretendo na boca e escorrendo pelos lábios, ainda que você não seja assim, quem eu gostaria que fosse eu vou gostar de você.
Vou gostar de você até se um dia eu for embora e você sorrir por me ver partir, e eu vou viajar escutando músicas tristes pra arrancar da alma toda a vontade de chorar até explodir, vou ficar pensando em tudo o que não fizemos e o quanto nós não sonhamos, ainda assim, vou gostar de você até o fim.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Eu me aguento


"E se o peso do corpo foi ainda maior, ande com os pés fora do chão"



Eu me agüento porque alguém neste mundo precisa me agüentar. Eu suporto esquecer os sapatos perto da cama e socar o pé na porta. Alguém precisa me suportar.
Eu machuquei a perna no cinema e dei risada porque a batida foi tão imbecil e nem teve sangue pra que alguém precisasse me pegar no colo, e mudamos de lugar pra evitar o ar gelado e eu bati de novo a mesma perna no mesmo maldito lugar, e tranquei a boca e aqueles palavrões que quase vomitei.
Eu me agüento porque apesar de não me entender nas minhas confusões, eu confesso pra todo mundo que só não sei o que fazer e alguém precisa me entender e me agüentar, que seja eu mesma, por mim mesma, pela falta de gente que me deixa ficar sem esperar nada em troca.
Eu tomo banho pra chorar em paz, eu saio do banheiro com a cara toda inchada como se tivesse levado umas porradas no boteco da esquina, e daí eu digo que é natural, os dedos enrugam, o rosto incha, é a água quente e coisa e tal – mãe é culpa do vapor-.
Alguém precisava enxugar estas lágrimas, e me secar depois do banho, sem perguntar o motivo do choro ou porque a perna está rocha e machucada, bem num lugar que eu precisaria correr e me socar na parede pra ficar como ficou. Eu deixei os palavrões no cinema, não há nada que eu queira contar.
Eu me agüento porque as pessoas esperam demais dos meus óculos de grau, da minha capacidade de me reinventar todos os dias, esperam demais só porque eu tenho uma mesa só pra mim, um computador só pra mim, e um telefone que eu odeio, só pra mim.
Eu suporto mais do que qualquer pessoa meu vai-e-vem sobre humano, minhas vontades esquisitas e meus gritos esquizofrênicos. Me agüento quando eu danço freneticamente pra afastar as pessoas, me agüento na vergonha, na besteira, na merda depois de feita e sem conserto.
Eu preciso me entender, me aceitar, me mudar e deitar no chão já cansada porque ninguém mais me agüenta. Qualquer cara agüenta um corpo nu de mulher, mas eu, ainda sem roupa, me sinto pesada demais, e sou eu quem agüenta este peso.
Às vezes eu ando torta de propósito, pra ver o mundo por outra perspectiva, porque daí me sinto um animal sem pele, e todo mundo que me olha vê meu coração batendo, assim, do outro lado da rua.
As pessoas me olham quando pareço mais estranha do que já sou, alguém precisava é me olhar por dentro. Me agüentar quando eu estiver de pijamas e despenteada, quando minhas respostas forem curtas e eu soltar algumas palavras sem necessidade, isso não é um pedido – me agüentem por favor – é gratidão por mim mesma, estou só colocando isso tudo em algum lugar pra que eu possa ler e lembrar de vez em quando, que eu também [junto da maioria], não posso desistir de mim, alguém precisa me agüentar, que seja eu mesma, por mim mesma, e coisa e tal.